Especialistas reunidos em Campo Grande detalham como o uso da reprodução programada ajuda a driblar o tempo da natureza, garantindo mais bezerros no pasto e lucro certo na virada do mercado
Ter mais bezerros nascendo no tempo certo deixou de ser um processo natural, para virar planejamento estratégico dentro das fazendas. Para enfrentar os altos custos atuais e se preparar para a forte valorização da carne prevista para 2026, os pecuaristas estão apostando em tecnologias que programam e aceleram a prenhez das vacas. Esse cenário prático foi o foco dos debates nesta sexta-feira (17), em Campo Grande, durante a apresentação do Benchmarking da Estação de Monta 2025-2026, evento que reuniu os resultados de propriedades focadas em alta performance.
No dia a dia do pasto, o maior obstáculo do produtor é fazer com que a vaca volte a emprenhar logo após dar à luz. Em entrevista ao jornal O Estado, Igor Garcia Motta, médico veterinário e especialista em reprodução animal, explica que a introdução de técnicas de inseminação programada, conhecidas como Inseminação IATF (Artificial em Tempo Fixo), transformou a rotina rural. “Quando a gente pensa num gado de corte, que é o foco que vocês acabam tendo no estado, uma das biotécnicas que mais tem incrementado e melhorado a eficiência reprodutiva, com certeza, é a inseminação artificial em tempo fixo”, afirma o médico veterinário.
Motta traduz o problema fisiológico que a tecnologia resolve. “O grande problema dessa vaca é que depois do parto, por conta da presença do bezerro e de falhas relacionadas à nutrição, esses animais acabam entrando numa dormência reprodutiva”. A solução vem com o uso de medicamentos específicos. “Uma das vantagens do protocolo é tirar essa fêmea dessa condição de dormência. A gente consegue mimetizar o que seria o animal ciclando de forma fisiológica através da aplicação de alguns fármacos, e conseguimos estar inseminando os animais no mesmo tempo, sem a necessidade da observação de cio”, conclui o especialista.
O evento foi realizado pelo Grupo Aliança Consultoria e Assessoria Pecuária, com a divulgação dos dados consolidados do Benchmarking da Estação de Monta 2025-2026. Mais do que um levantamento interno, os números revelam o “termômetro” da produtividade das empresas pecuárias que buscam alta performance, servindo como um guia de tendências para a próxima safra. O evento reuniu especialistas em economia, reprodução animal e gestão de pessoas para debater o futuro do agronegócio sob a ótica da profissionalização.
O fator humano por trás da inovação
Porém, toda essa tecnologia reprodutiva depende de quem executa as tarefas na fazenda. Aldo Bianco, psicólogo e consultor organizacional reforça que o sucesso das inovações no campo passa diretamente pela gestão da equipe. “Hoje, o conceito de gestão não é mais só gerir. É gerir e gerar. Gerir o quê? Gerir pessoas e processos para gerar resultados”, explica o psicólogo. Ele ressalta a importância da formação e capacitação do funcionário, como uma “retribuição social” do patrão com o esforço e cuidado do seu colaborador.
Bianco ressalta que o produtor rural precisa valorizar seus colaboradores para reter talentos, lembrando que “da porteira para dentro não são só quatro patas, é um ser humano que chega com uma família, com uma história”. O consultor alerta que a adoção de novas ferramentas não substitui o lado humano e deixa um recado essencial aos gestores do agronegócio: “Olhem para as pessoas tanto quanto olham para a balança na hora de medir a arroba do boi”.
A economia reflete a eficiência
Resolver essa lentidão reprodutiva da porteira para dentro é exatamente o que vai permitir ao pecuarista ganhar dinheiro da porteira para fora nos próximos anos. Os dados consolidados do Benchmarking do Grupo Aliança confirmam que 2026 será o “ano da virada”. O mercado vai segurar as fêmeas no campo para procriar (retenção de matrizes), o que reduzirá a oferta de gado pronto para o abate, puxando os preços da arroba para cima.
Neste tabuleiro econômico, Mato Grosso do Sul mantém uma posição de força. Thiago Bernardino de Carvalho, economista e pesquisador do Cepea/Esalq/USP, avalia o peso do estado para atender a essa demanda. “O estado de Mato Grosso do Sul sempre se caracterizou como um dos expoentes na produção pecuária. É um estado que tem uma posição de destaque no ambiente Brasil e no ambiente externo. Não é o maior exportador de carne, mas é um estado que compõe, até pela sua gama de indústrias e por colocar qualidade no mercado, um ‘share’ importante em termos de mercado internacional”, analisa Carvalho.
A expectativa é que o mercado externo compre ainda mais do Brasil, com a projeção de que as exportações absorvam 40% de toda a carne produzida no país em 2026. Para o economista, a janela global é muito favorável. “O mundo tá com baixa oferta de carne. O mundo precisa da carne brasileira. O cenário se torna positivo para nós, porque para recompor rebanho demora muito tempo no boi, é diferente do frango ou do porco. O cenário nos próximos cinco, dez anos se desenha muito interessante para aquele pecuarista que investe na atividade”, projeta o pesquisador do Cepea.
A conta se fecha em um equilíbrio entre o produtor aderir e aplicar a tecnologia para expandir o seu rebanho, mas também no treinamento e gerenciamento do seu corpo trabalhista. Para assim colher os frutos da alta demanda de carne em 2026.
Fonte: O Estado Online