Vocêm estudo inédito divulgado nesta terça-feira (26) aponta que cerca de metade dos estudantes brasileiros do 9º ano do ensino fundamental e do 3º ano do ensino médio afirma não reconhecer debates sobre desigualdade racial dentro das salas de aula, apesar da existência de leis que obrigam o ensino da história e cultura africana, afro-brasileira e indígena nas escolas.
Os dados fazem parte do levantamento “Desigualdade racial na Educação Básica: a percepção de estudantes e professores a partir do Saeb 2023”, realizado por pesquisadores ligados ao Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), Instituto Alana e Geledés.
A pesquisa reforça a percepção de famílias que consideram o debate racial ainda pouco presente no ambiente escolar.
A advogada Karina Berardo, mãe de dois filhos negros, afirma que um trabalho escolar pedido à filha de 15 anos, em Brasília, chamou atenção justamente por abordar a contribuição da cultura negra na formação do Brasil, e não apenas a escravidão.
“Houve uma ampliação do tema no ensino médio. Hoje existe um olhar mais positivo, mas ainda acho raro”, afirma.
Segundo ela, durante o ensino fundamental as discussões costumavam estar quase sempre ligadas ao período escravista.
Pesquisa aponta distância entre professores e alunos
O estudo mostra um descompasso entre o que professores afirmam abordar em sala e o que é percebido pelos estudantes.
Enquanto 81,6% dos professores do ensino fundamental e 71,6% dos docentes do ensino médio dizem tratar frequentemente das desigualdades raciais, menos da metade dos alunos afirma perceber esse debate nas aulas.
Entre os estudantes do ensino fundamental, apenas 46,6% dizem reconhecer que a maioria ou todos os professores abordam o tema. No ensino médio, o índice é de 46,8%.
Para a socióloga Flávia Rios, professora da USP e pesquisadora do Cebrap, a legislação avançou nos últimos 20 anos, mas ainda é aplicada de forma desigual no país.
“A gente não conseguiu universalizar a aplicação dessa legislação nem torná-la consistente dentro do currículo escolar”, afirma.
Segundo ela, a implementação das políticas depende muitas vezes de iniciativas isoladas de secretarias de educação ou do Ministério da Educação.
Escolas privadas apresentam índices mais baixos
A percepção de ausência do debate racial é ainda maior entre estudantes da rede privada.
Segundo o levantamento, 60,8% dos alunos de escolas particulares afirmam não reconhecer discussões sobre desigualdade racial nas aulas, tanto no ensino fundamental quanto no médio.
Na rede pública, os índices ficam em 51,4% no fundamental e 51,9% no ensino médio.
O estudo também mostra diferenças na percepção conforme o perfil racial dos estudantes. Alunos brancos são os que mais afirmam não reconhecer o tema em sala de aula.
Para a pesquisadora Eliane Firmino, do Cebrap, os números indicam que a legislação existe, mas ainda enfrenta dificuldades práticas para ser aplicada de forma efetiva.
“A educação antirracista não deve ser entendida apenas como uma política voltada para estudantes negros, mas como uma formação cidadã para todos”, afirma.
Especialistas defendem fiscalização e formação de professores
Pesquisadores defendem maior fiscalização das políticas educacionais, formação continuada de professores e ampliação da diversidade racial no corpo docente.
A coordenadora do Instituto Geledés, Suelaine Carneiro, afirma que ainda faltam ações estruturadas para garantir o cumprimento das leis.
“A gente precisa de monitoramento, material didático adequado e formação de professores”, diz.
Ela também destaca a importância de envolver docentes não negros nas discussões sobre relações étnico-raciais.
O estudo recomenda ainda maior diálogo entre escolas, famílias e estudantes para combater o racismo de forma permanente, e não apenas em datas específicas como o Dia da Consciência Negra.
A servidora pública Juliana Couto, mãe de duas meninas, afirma que já percebe mudanças em comparação com sua infância, mas acredita que os avanços ainda são lentos.
“Quando eu era criança, praticamente não se falava sobre isso. Hoje melhorou, mas ainda é uma construção de longo prazo”, afirma.
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