“Eu nunca imaginei que um personagem na minha primeira novela fosse gerar tanta identificação”, contou à reportagem. “No começo, ele estava ali para dar assistência à família que estava sofrendo tanto. Ao longo do tempo, isso foi mudando, e o Mau Mau começou a contar a própria história.”
Parte dessa mudança veio com a aproximação de Felipe (Pietro Antonelli), romance que não estava previsto na trama, mas foi incluído após pedidos do público nas redes sociais. “É a força da internet, o poder da obra aberta”, disse.
A chegada de Fernando (Pedro Alves) formou um triângulo amoroso e dividiu a torcida entre Malipe, nome dado ao casal Mau Mau e Felipe, e Manando, dupla formada por Mau Mau e Fernando. João Victor diz que acompanha pouco as discussões nas redes e evita tomar partido.
“Eu não posso falar de Malipe porque os Manandos vão ficar chateados, não posso falar de Manando porque os Malipes vão ficar chateados. Tenho que ficar equilibrando os dois”, brincou.
Na vida real, porém, o ator confessa que teria outra atitude. “No lugar do Mau Mau, eu não ficaria com os dois nunca na vida. Sou muito romanticozinho”, afirmou. Logo, porém, admite que, se tivesse que escolher entre uma das duas opções, faria par com o estudante de medicina.
“Acho que ficaria com o Fernando, pelo jeito dele. Sabendo que o Felipe é filho da Fábia [Flávia Alessandra], que tem aquela relação supertóxica com a minha irmã, eu não daria nem a oportunidade de gostar dele.”
Na telinha, a disputa está indo para um outro caminho. Em episódios que foram ao ar no começo de outubro, Fernando se declarou para Mau Mau e foi dispensado pelo jovem, que está apaixonado por Felipe. O primeiro beijo do casal queridinho do X (antigo Twitter) está previsto para ir ao ar na próxima terça-feira (20).
Além do romance, o personagem provoca identificação por sua relação com a família, especialmente com o avô Otoniel (Tony Ramos), que demonstra atitudes homofóbicas. João Victor, que é gay, buscou experiências pessoais e relatos de pessoas próximas para construir os conflitos.
Diferente de Mau Mau, o ator teve o apoio da família, mas, mesmo assim, ressalta que se calar para se proteger faz parte da experiência queer. “Toda pessoa LGBT, em algum momento, já teve que se esconder”, disse. “Mesmo com apoio da família, em algum lugar alguém vai te falar alguma coisa, você vai ter que engolir esse sapo e respirar fundo e seguir em frente.”
Entre os relatos recebidos de espectadores, um dos mais marcantes veio de uma mãe cuja filha enfrentava a mesma rejeição de seu personagem: os avós não aceitam a sexualidade da menina.
“Ela falou assim: ‘É difícil ver a minha filha descobrir que quem ela mais ama não ama mais ela’. É muito dolorido ler uma coisa dessas. Sofrer um ataque homofóbico na rua é horrível, mas sofrer isso de quem você mais ama é uma coisa sem explicação.”
O sucesso da novela também transformou a rotina do ator, que deixou São Paulo, onde nasceu e cresceu, para morar sozinho no Rio de Janeiro. A exposição o pegou de surpresa. Hoje, é reconhecido nas ruas, recebe pedidos de fotos e mensagens de artistas que antes admirava à distância.
“Eu não estava pronto para isso e sigo não estando pronto (risos). Não vou conseguir fingir normalidade. Para mim não é normal”, afirmou. “Estou aqui conversando com você e chegou uma mensagem da Leticia Colin! Eu não vou fingir normalidade para isso.”
Trabalhar ao lado de nomes como Colin, Tony Ramos e Isabela Garcia também trouxe aprendizados. O ator conta que recebeu conselhos dos veteranos sobre como lidar com a exposição.
“Logo no comecinho da novela, ele [Ramos] veio conversar comigo sobre isso. Ele falou: ‘você sabe que seu personagem é um personagem importante, você vai ser parado na rua. Você tem que saber diferenciar o ator do personagem’. Eles sempre me aconselham muito”, contou.
Essa visibilidade ganhou outra dimensão em setembro, quando João Victor denunciou ter sido vítima de homofobia durante o Rock in Rio, em setembro. Ele diz que contou com o apoio de familiares, amigos e colegas de elenco, mas ficou abalado com a exposição e as tentativas de inverter a situação.
“O que mais me chateou e me fez chorar foi a exposição, ouvir essas pessoas tentando inverter o jogo, me acusando de outras coisas”, disse. “Eu tenho esse apoio, tenho essa força, mas tenho certeza de que antes de mim isso aconteceu com várias outras pessoas.”
Ele comentou que o caso está nas mãos de seus advogados e ainda pode ter que prestar um depoimento à polícia, mas ainda não recebeu novas informações sobre o andamento do procedimento.
“Nessa situação toda, eu sinto que o que fez com que mudasse tudo foi simplesmente uma sociedade que tem possibilidade de esperança. Todo mundo se uniu a meu favor. Eu fiquei muito impressionado e feliz com isso. A gente ainda pode acreditar na nossa sociedade”, disse.
Com o fim de “Quem Ama Cuida”, previsto para o começo de 2027, João Victor ainda não tem outro trabalho confirmado. Pretende voltar para São Paulo, mas não descarta permanecer no Rio caso surja outra oportunidade. “Alô, produtores de elenco que estiverem lendo essa reportagem, estou disponível a partir de janeiro”, brincou.
Antes de se despedir de Mau Mau, porém, ele espera que o personagem encontre espaço para viver outras histórias além do romance. “As pessoas LGBT amam, se descobrem, mas também vivem, trabalham, têm relações familiares, amigos, hobbies. Quero que o Mau Mau consiga se desenvolver como pessoa além do romance. Ele é um personagem que tem camadas, que tem estrutura.”
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